Trabalhei toda a vida. Comecei aos catorze anos quando o meu pai me pôs a trabalhar durante as férias na oficina do meu tio porque chumbei o ano.
Aos dezassete anos quando acabei o secundário não havia empregos e não havia dinheiro para ir tirar uma licenciatura. A alternativa foi voltar à oficina do meu tio.
Como sempre quis aprender novas tecnologias, isso deu-me a oportunidade de entrar numa grande multinacional americana. Passados catorze anos fui convidado para mudar para outra. Ganhei bem a vida e conheci mundo.
Em 2005, início da crise, fui obrigado a aceitar um acordo mútuo de rescisão do contrato de trabalho.
Como sempre tive um espírito empreendedor aproveitei para iniciar uma actividade por minha conta e tirar uma licenciatura e uma pós-graduação.
Em 2009, tive um acidente que me forçou a estar nove meses de baixa e sem ganhar um tostão. Por ser empresário em nome individual nem tive direito à baixa. Perdi o cliente mais rentável que tinha porque devido à minha imobilidade prolongada tiveram de me substituir e já não voltei a recuperar a posição.
Perdi outros contratos porque muitos clientes não conseguiram aguentar os custos e começaram a cortar em tudo. Os clientes que vou mantendo acham tudo caro e estão se borrifando para pensar nos custos que tenho para lhes garantir o serviço. Há mais oferta que procura e então eles querem é explorar...
A electricidade, o telefone, a internet aumentam sem aviso prévio. Este ano gasto mais 65% do que gastava o ano passado para trazer as mesmas coisas do supermercado. Onde é que está o pobre do Belmiro?
Chega o início do mês e cai tudo. Caem os que já referi e cai o cartão de crédito, cai a (in)segurança social, cai a prestação da casa... Sei lá já o que cai. Da última vez que fui ao supermercado deixei cair os tomates. Ah! O Gaspar antes de se demitir ainda me deixou o IRS e o IMI para pagar. Que filho este...
Não há clientes novos, os clientes antigos usam os calhambeques até à última e acham que eles não andam depressa por culpa do técnico. Actualizarem as aplicações é como quem lhes arranca as tripas... querem é "fugir", não sei se do Gaspar ou como o Gaspar.
Descontei para a (in)segurança social toda a vida e muito. Planeei a minha vida para pedir a reforma antecipada e agora não posso porque os políticos arrebentaram com o país. Mas eles continuam a poder reformar-se com alguns anos de vómito de tretas no hemiciclo.
Apesar da crise o país está cheio de políticos falhados que puseram a mão no património público e agora vivem como comentadores políticos, cagando postas de pescada e sacando os impostos dos contribuintes.
O pior é não haver trabalho. Eu não falo em emprego, porque eu vou à luta para procurar qualquer serviço que possa prestar. O problema é que ninguém quer investir neste país governado por rapazolas. Entra o Pedro, entra o Paulo, dois rapazinhos a saltar à corda...
Emigrar? Para onde? O mundo já está cheio de portugueses por todo o lado.
Só cá ficaram os velhos e os chulos. Nem as pessoas com trabalho fácil já se governam.
Só há uma palavra a dizer. Não digo porque é contra os meus princípios. Adivinhem...
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